sábado, 7 de novembro de 2009

Nocturno III - o retorno

"Pobre inseto que dormia
No vão do box do meu banheiro
Mal sabia o pobre coitado
Que podendo escolher num mundo inteiro
Foi descansar logo ali
Onde morera afogado
Pela água do meu chuveiro."

Para SamOel.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009


Eu me perguntei milhares de vezes se era você.
E milhares de vezes desejei que a resposta fosse 'sim'.
Milhares de vezes te olhei nos olhos e te pude entender.
Como milhares de vezes desviei um olhar insatisfeito.
Milhares de vezes fui sua.
Por milhares de vezes desejei não ser.
Das vezes milhares que acreditei em você,
em milhares delas estava enganada.
Em outras milhares, não.
Milhares de outras pessoas sabem mais de você.
Milhares de outros olhares me tocam.
Mas dentre milhares de escolhas que podia fazer,
a única da qual não me arrependeria por milhares de motivos óbvios...
é ter escolhido você.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ele trata as mulheres com uma dose perfeita de condescendência única.
Escreve para elas, pela aprovação de uma sensibilidade máscula.
Tem prazer em ‘boas semanas’, ‘beijos saudosos’,
e verbetes adjetivados em meio a ‘você é tudo isso’...
Você o conheceu assim, quando era uma delas.
Você o conheceu sabendo de tudo o que era capaz.
Ah, querida. Quantas vezes mais pretende meter os pés pelas mãos?
Você se pergunta se esperou demais.
Você olha nos olhos, beija a boca...
E espera que toda a espera não seja só sua.
Ele é sinuoso, intenso, docemente erótico; quando escreve.
E você só espera toda a intensidade quando está perto.
Mas apenas a sinuosidade encontra lugar fora das palavras escritas.
Você o quer para além do que ele mostra que pode ser...
Porque soube pelo que ele diz que isso é possível.
Ele diz que o amor é lindo, que o mundo precisa de retalhos,
que ama além dos limites de qualquer um,
e diz que tem um balão...
Você só espera que suas palavras transpareçam mais em atos.
Só espera que o poeta não seja apenas uma exibição literária.
Só quer não ser enganada por rimas baratas como foi um dia.

Ele trata as mulheres com uma dose perfeita de condescendência única.
Você só quer ser diferente dentre todas essas mulheres.
Porque é em você o abrigo que ele procura quando a lua cai.
Me limitar a ser sua é sempre muito melhor do que eu achei que seria quando não era de ninguém.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Me dá um respiro e eu já volto.





mesmo te amando,
fico sem saber se te agrado demais
ou de menos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Liberdade

Se és liberto, amor.

Liberta-me pois, também.
Tira do meu peito a dor.
Faz-me, enfim, o bem.

para Jéssica

sábado, 19 de setembro de 2009

Querido,

fui ao supermercado comprar o aspargo para o almoço
aproveito para passar na casa da Clarinha e pegar o meu casaco
seu café está pronto, na mesa da cozinha
derreti o queijo, mas dê uma esquentadinha antes de comer
coloque ração no aquário quando levantar
volto logo

Sua.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Passa a menina, Nina, de tranças
De tranças negras como'quê
Passa Nina de tranças e lata na cabeça
Passa menina, de lata nas tranças
De lata cheia d'água.

Menina das tranças e da lata
Não vê a pedra no barranco
Menina se abarca de lama e mato.

Vem a menina de tranças
Vem Nina de lata nas mãos
Joelhos ralados, panos rasgados
Vem menina, Nina das tranças
Tranças de lama, corpo bagunçado
Distraída, coitada, a menina
se machuca como'quê.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Desfez-se num momento inoportuno, quando demonstrar fragilidade não era encanto, era engano. Desfez-se e nem sem lembrava mais como. Chorou quando não podia, mesmo não sendo em vão. Agarrou-se na esperança de ser amada a cada lágrima. Colocou-se simples e entorpecida. Colocou-se dele. E não houve arrependimento até então.
A vida é tão perene. E eu já amo tanto a forma como ela é.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ele chegou quando ela não esperava. Entrou quando ela não via. E ficou onde ela nem achou mais que existia.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A Esperança...

Já não havia canções sobre amor ou tristeza, nem mais se ouvia o barulho das garrafas vazias. Ela atravessou o convés, passando por entre os corpos desmaiados ou dormidos, amontoados uns sobre os outros, espremidos entre o frio e o medo. O vento fez com que seus cabelos se esvaíssem dos ombros, traçando movimentos ritmados. As pontas do vestido acariciavam os rostos daqueles coitados. Parou ao lado de um deles, que lhe parecia sorrir um sorriso fresco, sussurrando palavras sonhadas por entre os dentes. _ E que fim teríamos nós, senhor? Se não este único que conhecemos? Sorri enquanto é noite. Enquanto o fogo não lhe queima a alma...
Retirou-se do convés, e foi assistir ao bater maquinal das ondas negras, banhadas pelo sangue de uma lua de plástico. _ Como foi que conseguimos destruir um mundo inteiro?
Disse para si mesma, enquanto subia numa das caixas no canto na amurada. De cima, olhou uma última vez para o lado da popa, os corpos emaranhados, as cobras se enroscando aos cabelos úmidos, coloridos de visgo e limo. _ Se cada um é por si, não serei eu a que ficarei por todos.
E deixou-se pender sobre o próprio corpo, caindo no vão de águas escuras que banhava a embarcação do inferno.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Amour

Além de tudo, tenho ciúmes do teu passado.
Das tuas divas, dos teus amores.
E de quantas mais olhou nos olhos e amou.
E de todas mais a quem sorriu timidamente.
E daquelas a quem cedeu abraços e sussurros.
Tenho inveja dos chocolates, dos vinhos, da fumaça.
Tenho inveja das que um dia foram capazes de te tirar o sono.
Inveja das palavras bonitas, dos beijos ardentes, do sexo vil.
Inveja de todas as que fizeram parte de uma vida sua.
Ou de várias de tuas vidas.
Além de tudo...
Do amor, do desejo, da paixão, da necessidade...
Tenho ciúmes do que você era quando não era meu.
E vontade que tivesse sido meu desde o teu primeiro suspiro.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

as vírgulas, meu amor

Recostei-me na cadeira num desleixo preciso, com medo de que você não percebesse a minha solicitude. Você não percebeu. E o esmero com que retalhei meus cabelos por cima dos ombros nus foi em vão. Atravessou as mesas, confuso, e não me deixou mostrar o que tinha guardado para você. Deslizei a mão pelos joelhos delicadamente abertos, acariciei o pescoço sorrateiramente. Docemente ordinária, vagamente sutil.
Você nem sempre sabe enxergar o que está à sua frente. Ainda tem seus tempos de menino, enquanto eu me proponho a ser apenas mulher. Esperei, e soube, por entre risos e olhares, que você queria o que eu posso ter. Mas não consigo ignorar as vírgulas infames que leio, os olhares vis que me atormentam.
Me lembro de você em outra vida, num passado que há muito não me vinha à memória. Mas você era alguém que já não é, e o que é agora é o que me pertence.
Pensei nisso quando te li nos meus sonhos, e enquanto ofegava delicadamente na cadeira, esperando um olhar extraviado, mínimo que fosse, por entre os gestos e palavras com que você presenteava todos os outros. Senti a sua boca nos meus dedos, e ouvi você dizer suspiros, e amei a forma como passava os dedos nos meus quadris, daquela forma tão fingidamente casual. Eu me entrego aos seus olhares, e me seduzo pelas suas mãos. Mas há um quê que me limita a ser sua, e que faz o coração se remoer. As vírgulas, meu amor, e aqueles atemorizantes olhares vis.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

assim,

Construí os seus detalhes de papel marche. Mas papel marche não suporta água, vento, sol. Papel marche é frágil. Papel marche não presta.
Desenhei você nos meus extratos velhos. Mas extratos se apagam. Extratos não prestam. Prendi o sabor dos seus lábios na minha bituca de cigarro. Mas bitucas são lixo. Bitucas, definitivamente, não prestam.
Cada parte boa de você esteve perto, por milésimos de um segundo.
Eu vou me ater ao seu de bom. Vou me ater ao seu sorriso, e à parte em que você fez tudo ser perfeito. Mas não quero nada que me lembre você, quando você se for.
Quero frases suas num guardanapo velho, sua digital nos meus cabelos, suas roupas no meu chão. Coisas que se pode queimar, lavar, catar e jogar fora.
Quero um minuto do seu mais doce sorriso, dois minutos do seu mais tenro olhar.
E quero que você não hesite quando estiver pronto para atravessar aquela porta.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Do vento frio, apenas a lembrança.
Dos seus beijos, nem mesmo saudades.
Dos seus olhos, miragem.

Não mexe comigo, rapaz.
Você não sabe o que eu fiz, o que eu sou.
O que eu fui, já não sou mais.

Da dor, apenas cicatrizes.
Das brigas, só mesmo aprendizado.
Do seu sorriso, esquecimento.

Agora sou outra, rapaz.
Sou de outro também.Sou mais eu. Sou bem mais além.

terça-feira, 14 de julho de 2009

do que eu comentei naquele blog

Para quê exclamações, se podemos deixar espaço para mais... Errar não é bom quando se erra, minha cara. Mas é bom para não mais errar. Sim, eu sei... Depois a gente sempre erra novamente. Mas o que é a perfeição se não a procura pelo perfeito? Já reparou que o perfeito se mostra mais imperfeito que qualquer erro? Eu já. Já estive no topo do mundo, gritando aleluia! aos quatro cantos, dizendo que ali ninguém poderia me alcançar. E quer saber? Desci por minha vontade, com meus próprios pés. Não somos rabanetes. Somos mulheres, somos pessoas, temos vontades, desejos, erramos! E gostamos de procurar o final do arco-íris. O final do arco-íris, minha cara, é aqui. E não se zangue se o seu pote de ouro não estiver às mãos no fim do dia. Ame as reticências... Use-as a seu favor. As reticências te dão oportunidade de continuar. Por isso, são tão úteis quanto as vírgulas. Eu sei o quanto vírgulas dóem. Sei o quanto esperamos uma exclamção. Negativa, que seja. Não importa, desde que seja uma exclamação. Um ponto final cai bem. Mas aprendi que nas reticências... ah, nas reticências... Há oportunidades que até um sujeito oculto numa frase cheia de verbos no futuro do pretérito do indicativo duvidaria.
hoje eu acordei de coração apertado. respiração fraca. mãos geladas.
hoje eu li a mesma mensagem quinhentas e quarenta e duas vezes.
e ri quinhentas e quarenta e duas vezes.
hoje me disseram que estou mais gorda. "mas bonita. não entenda mal".
e me disseram que estou com olhar de quem está apaixonada.
"eu não sei explicar. é só diferente."
hoje eu senti sua falta. mas nem entendi mesmo porquê.
começou fraquinho. aumentou horrores.
hoje me perguntaram sobre você.
como se você fizesse parte de mim desde sempre.
hoje eu ouvi sua voz. e me pareceu que tinhas partido há tempos.
e não há poucos dois dias.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

ganhei uma ametista


não essa da imagem. essa aí é do google mesmo. mas a minha é bem parecida e está presa num cordão. também no google, descobri que é uma pedra super indicada para pessoas como eu. então, se você é uma pessoa como eu, namora uma pessoa como eu, conhece uma pessoa como eu, dá pra ela uma ametista.

a ametista é indicada para os signos áries, virgem, sagitário, capricórnio e peixes (o meu). esses são signos caracterizados pela inconstância e criatividade. artistas, astrólogos, psicólogos, professores e filósofos também se identificam com a ametista. vou incluir por minha responsabilidade: jornalistas, escritores e poetas (que podem também ser incluídos na categoria artistas).

a ametista é a pedra dos boêmios (pra não dizer bêbados). o nome vem do greo amethistos, que significa não-bêbado. o povo da grécia acreditava (alguns devem ainda acreditar) que a ametista protege de tristeza, nostalgia, feitiçaria, maus pensamentos, embiaguez e penetração dessas forças sobre o espírito. favorece a pele, os cabelos, harmonia, sono, autocontemplação (ou seja, cuidado com a pessoa que escolher para dar uma ametista, se já for astro demais, o bicho pega!) e divindade. a ametista deixa a pessoa divina! di-vi-na.

e...

"tudo o que é prazer é divino. só é baixo, só é vil o que não nos faz vibrar de um gozo qualquer". (medeiros e albuquerque)

ametista.
se você está triste, você se explica, resmunga, poetiza, filosofa, extrapola e faz tudo parecer um grande drama shakespeareano. se você está feliz, você está feliz. a felicidade é tão boa que não há o que se explicar, ou a tristeza é que inspira? acho que é o incômodo da dor. ninguém gosta de doer (salvo sadistas), e a melhor forma de tentar superar a dor é discorrer sobre ela. eu acho. é o que eu faço. e, normalmente, dá super certo. a dor incomoda porque o ser humano subestima a importância de doer. doer é importante porque faz evoluir, faz crescer, faz produzir, gera criatividade, aumenta o ego. sim, aumenta o ego! já viu mulher mais bonita que mulher que sofreu? mulher quando leva um pé na bunda, muda! muda cabelo, muda unhas, muda guarda-roupas, muda a cor do olho. mulher bonita é mulher que já sofreu. então, a dor dignifica. a dor até cura. cura espinhas, cura falta de senso, cura auto-desvalorização, cura cegueira. sim, cura cegueira. a dor te faz enxergar muito! e quando eu digo dor, quero dizer dor mesmo. dor de tristeza, de saudade. dor de coração descompassado, de falta de apetite, de vontade de sumir. dor de arrepio, de soluço. se eu pudesse criar um fato absoluto agora, um conselho do tipo verdade universal, seria: não tenham medo da tristeza! não tenham medo da dor que vem com a tristeza. não tenham medo da escuridão que a dor que vem com a tristeza gera! a tristeza é intrínseca, a dor é necessária. ser feliz depende de ser triste. ser triste não é ser, é estar (apesar de que eu sempre digo que sou, e não estou, mas aqui está a minha ressalva: a dor me ensinou inclusive isso). você pode ter tristeza e transmitir alegria, inclusive. - apesar de ler seus textos, sempre achei que você era extremamente feliz. nunca te vi um só dia triste – eu sei, também me confundo comigo mesma às vezes. dá pra ser! tristeza também gera felicidade, eu sei. então, essa é a minha verdade universal, meu conselho de pseudo-auto-ajuda, minha deixa de hoje: não tenha medo da porra da dor! abrace a tristeza, dê um tapinha nas costas dessa infeliz (bem oportuno) e encha a cara de nutella com biscoito! amanhã, aposto que seu corte de cabelo será um arrazol.

eu? bom... eu estou feliz, obrigada.